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Dra. Gabriela Sousa

Carcinoma de células renais:
“Velhos conceitos, novas estratégias"

Dr.ª Gabriela Sousa, médica oncologista e diretora do Serviço de Oncologia Médica do IPO Coimbra, sobre os fatores de risco, diagnóstico e tratamento do carcinoma de células renais.

 

Os tumores malignos do rim podem ter origem no tecido renal ou no sistema de eliminação da urina (sistema excretor). Estes últimos são geralmente carcinomas uroteliais e representam cerca de 10% dos tumores do rim. Por sua vez, os tumores que têm origem no parenquima renal são geralmente denominados de carcinoma de células renais e, no adulto, podemos dizer que apenas 2-3% correspondem a formas hereditárias da doença. A maioria destes tumores é esporádica sendo o risco maior nos homens do que nas mulheres e a sua incidência superior a partir da 6.ª década de vida, aumentando com a idade.

 

Os principais fatores de risco associados a este carcinoma são: o consumo de tabaco, a obesidade e a hipertensão arterial. O fumo do tabaco contém inúmeros hidrocarbonetos, aminas aromáticas e nitrosaminas que são potencialmente carcinogénicas. Sabemos que a falta de exigenação nos tecidos (hipóxia), associada à exposição crónica ao monóxido de carbono, também é um mecanismo importante de desenvolvimento dos tumores do rim. Assim, a prevenção deste tipo de cancro está muito associada à mudança de hábitos e estilo de vida saudável, nomeadamente o controle do peso, o exercício regular, a dieta mais rica em fruta e legumes, o controle da ingestão de sal e abstinência de tabaco (convencional ou aquecido).

 

Atualmente, não há dados que nos permitam aconselhar qualquer tipo de rastreio. Contudo, no caso de sintomas de dor lombar persistente, alterações urinárias ou sintomas constitucionais (perda de apetite, perda de peso ou cansaço sem causa aparente) deve proceder-se a investigação diagnóstica.

 

No que diz respeito ao tratamento dos tumores do rim, este geralmente é cirúrgico e sempre que a doença esteja localizada ao rim deve ser este o tratamento preferido. No caso de doença avançada, tem-se registado nos últimos anos avanços terapêuticos muito significativos. Como se sabe, o carcinoma de células renais é tradicionalmente um tipo de neoplasia resistente à quimioterapia clássica. Deste modo, um melhor conhecimento dos mecanismos biológicos que levam ao Carcinoma de células renais: “Velhos conceitos, novas estratégias”desenvolvimento e crescimento deste tipo de doença ajudou a identificar novos alvos terapêuticos.

 

Atualmente, sabemos que para estes tumores crescerem têm de forçosamente gerar vasos sanguínios que os alimentem. Neste sentido, se controlarmos este mecanismo de angiogénese com medicamentos é possível reduzir o crescimento tumoral e induzir resposta ao tratamento. Por sua vez, outro mecanismo fundamental de controle dos carcinomas de células renais é a imunoterapia. Neste caso, o que fazemos é “desativar” o travão que o tumor provoca no nosso sistema imune para crescer. Isto vai fazer com que o nosso sistema imune consiga reconhecer as células do tumor como estranhas ao organismo e as consiga combater.

 

De facto, estes dois conceitos revolucionaram o tratamento do carcinoma de células renais, pelo que, durante a última década, assistimos a um forte desenvolvimento dos fármacos antiangiogénicos (sunitinib, pazopanib, levantinib, tivozanib, axitinib) que são geralmente usados de forma isolada. Já no caso de progressão da doença , como alternativa, disponhamos da imunoterapia.

 

Nos últimos tempos, mais precisamente na viragem da década (2019 e 2020), temos assitido a uma consolidação das terapêuticas conjuntas (Imunoterapia + anti-angiogénicos) que, comparativamente à monoterapia apenas com antiangiogénico, assumindo como tratamento standard o sunitinib, evidenciam eficácia e aumentam com significado estatístico a sobrevivência dos doentes. De facto, a imunoterapia tem-se revelado como uma mais valia nos doentes que respondem ao tratamento, longa duração de resposta que poderá ser mantida mesmo após a descontinuação do tratamento. Este é um conceito revolucionário e só possível porque o tratamento modela o nosso sistema imune que, sendo um sistema com memória, consegue perpetuar em muitos doentes o controle da doença, abrindo de novo a esperança da “cura” para muitos doentes com doença avançada!

 

Posto isto, reforço o papel da investigação ao serviço dos doentes e da comunidade científica, na descoberta de novas estratégias de prolongar a vida com qualidade a muitos doentes oncológicos.

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Dra. Gabriela Sousa

Diretora do Serviço de Oncologia

Instituto Português de Oncologia de Coimbra Francisco Gentil (IPO Coimbra)